fonte: Carta Capital / Folha / Reuters
A senhora do pré-sal
Luiz Antonio Cintra

Maria Graça Foster é a indicada para a presidência da Petrobras, no lugar de Gabrielli, que irá para o governo baiano. Foto: Renato Frasnelli
A data entrará para a história da estatal brasileira de economia mista, controlada pela União, à medida que se confirme a chegada da primeira mulher ao comando da empresa, de longe a maior do País em investimentos planejados. Até 2015, Graça Foster, como prefere ser chamada, será responsável por investir nada menos que 224,7 bilhões de dólares, dos quais 127 bilhões irão para explorar as reservas do pré-sal, dando continuidade ao planejamento estratégico da companhia.
Falando a CartaCapital de Davos, na Suíça, Gabrielli confirmou o convite – e a decisão de aceitá-lo – do governador da Bahia, Jacques Wagner, que o chamou para ocupar uma secretaria no governo baiano. Ainda falta decidir qual será a pasta. Gabrielli aproveitou para rebater a narrativa que uma parcela da grande mídia buscou criar logo após o anúncio da troca de comando, segundo a qual somente agora a presidenta Dilma teria “assumido o controle da Petrobras”, já que Gabrielli tomou posse indicado por Lula. “Querem criar uma versão da minha saída colocando antagonismos, entre uma suposta gestão política minha e uma gestão técnica da Graça, mas isso não existe. Mencionam o valor de mercado da companhia no último ano, mas é preciso olhar para a trajetória toda. Fui o presidente mais longevo da Petrobras, e no período a empresa passou de um valor de mercado de 14 bilhões de dólares em 2002 para os atuais 160 bilhões.”
No balanço que faz da própria gestão, Gabrielli destaca ainda o que considera uma mudança radical na orientação da estatal, colocada na lista das empresas a serem privatizadas, rebatizada de Petrobrax, dos tempos de FHC. “Era uma empresa fragmentada, pulverizada, que estava sendo preparada para ser vendida aos pedaços, e fizemos um esforço grande no -sentido contrário, de fortalecer a empresa. Também recuperamos o portfólio de exploração, que estava diminuindo. E investimos para encontrar petróleo, mas também para desenvolver a produção e o refino, onde resolvemos vários gargalos e passamos a investir em novas refinarias.”
A entrada da empresa no setor de biocombustíveis e os investimentos na produção de etanol também são apontados como pontos positivos, assim como o que o atual presidente considera uma “redefinição” das relações com o mercado. “E fizemos a maior capitalização da história, para dar solidez e ter a estrutura de capital necessária para arcar com os investimentos do pré-sal”, avalia. “Mas a verdade é que fui apenas o maestro de uma orquestra formada por músicos de primeira, os funcionários da companhia.”
Funcionária da estatal desde 1978, quando entrou na empresa como trainee, Graça Foster, hoje com 58 anos, tem uma trajetória inusitada. Nascida em Caratinga (MG), mudou-se para o Rio de Janeiro aos dois anos de idade, indo morar com a família em uma favela, hoje parte do Complexo do Alemão. Com dez anos, trabalhava como catadora de papéis para ajudar nas despesas de casa, enquanto seguia estudando.
Graduada em engenharia química na UFRJ, cursou pós-graduação no -Coppe, centro de pesquisas dirigido por Luiz Pinguelli Rosa, que foi professor de Graça e, mais tarde, seu colega de trabalho quando Pinguelli Rosa dirigiu a Eletrobras, no governo Lula.
Em entrevista a CartaCapital, em novembro de 2011, Graça comentou a política de preços da Petrobras, dando sinais de que o foco da companhia é o mercado interno. “Nossa política de preços é de 2002. De lá até hoje o preço do petróleo variou entre 35 e 110 dólares, chegando a 147 dólares por algumas horas. Com toda essa volatilidade, se a política de preços fosse curta, criaríamos dificuldades para o nosso cliente final, que é o nosso ativo mais precioso, mais importante do que refinarias e termoelétricas. A Petrobras é a única major a vender 85% do que produz no mercado interno, logo, preservar a capacidade de consumo da população é importantíssimo”, afirmou. E destacou o papel do -País como produtor mundial. “Estamos entre os países responsáveis por manter o brand no patamar atual, em torno de 100 dólares.” E apontou um ponto crítico que terá de ser enfrentado pela política nacional de energia, a começar pelo etanol, onde a Petrobras já detém 5,3% da oferta, por meio de parcerias com grandes usinas. “O álcool passa por um problema conjuntural, resultado do alto consumo de açúcar. Mas tudo isso faz parte de uma curva de aprendizado. Aprendemos quais são as sinergias entre os combustíveis renováveis e os fósseis que nos garantem uma maior estabilidade de receita. A ajuda (da Petrobras para elevar a oferta de álcool) é consequência dos bons resultados em petróleo. Sou conselheira da Petrobras Biocombustíveis e fico muito brava quando ouço críticas ao interesse da empresa nessa área. Temos uma série de projetos greenfield para o álcool. A visão agora é outra, somos uma empresa de energia.”
Segundo especialistas, entre os desafios colocados à estatal está a conclusão de obras importantes como a refinaria em parceria com a venezuelana PDVSA, em Pernambuco. Assim como as novas plataformas para a exploração do pré-sal, um desafio de engenharia que, conforme a política oficial, adotada desde o governo Lula, busca também ampliar a participação da indústria brasileira na cadeia de petróleo e gás natural, muito dependente de importações.
*Colaborou André Siqueira
Graça Foster leva "estilo Dilma" ao comando da Petrobras
DA REUTERS, NO RIO
A primeira mulher a alcançar a presidência da Petrobras tem um estilo gerencial bem parecido com o da presidente Dilma Rousseff. Exigente e determinada, Maria das Graças Silva Foster costuma ser dura com quem não atende suas demandas. Com fama de brava, Graça Foster, como é chamada, desperta admiração daqueles que trabalham diretamente com ela por seus conhecimentos técnicos e firmeza nas cobranças que faz e também por sua garra e superação diante das dificuldades vividas na infância.
Nascida em Caratinga, no interior de Minas Gerais, em 26 de agosto de 1953, mudou-se com apenas dois anos de idade para o Rio, onde cresceu no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, comunidade pobre que por anos foi ícone de violência da cidade, até ser pacificada em 2010.
Além de uma pequena bandeira do Botafogo, seu time, Graça exibe imagens de outras paixões em sua sala espaçosa do 24º andar da sede da Petrobras. Sobre a mesa, fotos da neta de 16 anos e do casal de filhos --um estudante de jornalismo e uma médica. Também guarda uma fotografia dela junto ao atual presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.
Graça Foster gosta de caminhar e ir à missa todos os domingos. Apesar de ser católica, preserva em sua sala algumas imagens de orixás, que segundo alguns conhecidos foram lhes dadas de presente.
Com uma carga de trabalho que ultrapassa diariamente 12 horas --ela chega todos os dias às 7h30 na Petrobras--, Graça Foster demonstra paixão pelo trabalho.
Costuma exibir com orgulho o livro de capa dura que mostra alguns trechos dos gasodutos construídos sob sua gestão --foram mais de 5.000 quilômetros em cinco
anos. "Este aqui é o meu bebê", costuma dizer.
| Sérgio Lima - 20.nov.07/Folhapress | ||
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| A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Maria das Graças Foster, que deve assumir a presidência da empresa |
PERFECCIONISMO
Assessores, funcionários e executivos que trabalham com Graça são unânimes em destacar o que consideram a sua principal marca: o perfeccionismo. Uns relatam que ela às vezes é dura demais com quem não atende a suas exigências.
Costuma visitar os projetos que dirige, para ver o andamento das obras, como fez nos cinco últimos anos à frente da grande expansão da malha de gasodutos da Petrobras.
Uma das 50 mulheres em ascensão no mundo dos negócios segundo o jornal inglês "Financial Times", Graça Foster tem apoio de Dilma desde 2003, quando foi indicada para ocupar a secretaria de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia, que era comandado na ocasião pela atual presidente.
Graduada em Engenharia Química pela Universidade Federal Fluminense, tem mestrado em Engenharia Química e pós-graduação em Engenharia Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e MBA em Economia pela Fundação Getulio Vargas.
Funcionária de carreira da Petrobras, onde ingressou como estagiária de engenharia em 1978, assumiu a diretoria de Gás e Energia em setembro de 2007.
NEGOCIAÇÕES DURAS
Em um caso que ilustra bem a sua personalidade, Graça mandou cortar 30% do gás fornecido à distribuidora de gás do Rio, a CEG, porque a empresa não teria cumprido uma acordo estabelecido com a estatal.
"Ela faz valer o que está escrito, é muito exigente e rigorosa com prazos", diz uma fonte próxima à futura presidente da Petrobras.
Apesar da fama de brava, foi justamente na sua gestão à frente da diretoria de gás e energia que a Petrobras encontrou paz junto à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Graça Foster assumiu o cargo atual com o desafio de acalmar os ânimos entre a estatal a agência, que brigavam porque não havia gás natural suficiente para atender ao mesmo tempo os segmentos industrial, residencial e termelétrico. A reguladora queria que a Petrobras desse prioridade às térmicas, o que foi atendido sob sua gestão.
A estatal colocou em prática um plano para aumentar a oferta de gás, que teve como base as enormes descobertas de petróleo (com gás natural associado) realizadas ao longo da última década e dos investimentos pesados da Petrobras em gasodutos.

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